Apesar de escrito em 98,esse texto é atualíssimo!
bom,pessoalmente sou grande fã de Frei Beto....,tanto por sua luta política e inteligência,como também pelo ser humano íntegro que sempre foi...
O hipocondríaco
Frei Betto
Em tempo de remédios falsificados e laboratórios
incompetentes, vale lembrar deste consumidor compulsivo que faz da
bula Bíblia: o hipocondríaco. Ele padece do mal de
ter mania de doenças e adora tomar remédios. Ao
passar à porta da farmácia não resiste e
pergunta: "O que tem de novidade?"
Nada mais ofensivo ao hipocondríaco do que erguer um brinde
e desejar-lhe "saúde!". Ele só freqüenta
coquetel de vitaminas. Encara sempre o interlocutor com aquele
olhar de quem diz: "ando sentindo coisas que você nem
imagina". No telefone, faz voz de vítima. Cara a cara,
suplica, silente, a compaixão alheia.
Está sempre entrando ou saindo de uma gripe; já tomou
todas as vacinas; sofre da coluna; padece de insônia; e trata
médico como faz com motorista de táxi: "Tá
livre?"
O hipocondríaco entra na Justiça exigindo mandado de
prisão contra os radicais livres e duvida que alguém
possa imaginar o tamanho da enxaqueca que teve ontem. Enquanto
outros fazem shopping, o prazer do hipocondríaco é
visitar drogarias de vitaminas importadas. Ingere pela manhã
o abecedário em drágeas e nunca se deita sem antes
tomar um chá de ervas.
Hipocondríaco não tem plano de saúde; prefere
cota de cemitério. Gosta de se separar da família
para morrer de saudades. E fica doente de raiva quando
alguém diz que ele aparenta boa saúde.
O autêntico hipocondríaco carrega sempre uma dorzinha
de lado, uma unha encravada, uma afta na boca, uma
irritação na garganta, uma dor na coluna e umas
tonturas estranhas.
Para o hipocondríaco, esposa ideal é a que banca a
enfermeira; cadeira confortável é a de rodas; e cama
macia, a de hospital.
O hipocondríaco é a única pessoa que, pelo
som, distingue sirene de ambulância da de viatura de
polícia e de bombeiro.
O guru do hipocondríaco é Hipócrates, e sua
filosofia se resume nesta questão metafísica: "Se a
gente nasce deitado e morre deitado, por que não viver
deitado?"
O hipocondríaco morre de medo da vida saudável.
Está convencido de que a diferença entre o
médico e ele é que o primeiro conhece a teoria e, o
segundo, a prática. Nunca pergunte a ele: "Vai bem?"
É preferível: "Melhorou?"
O hipocondríaco só assina revistas médicas e,
nos jornais, lê primeiro o obituário. Mas, ao
contrário do que se pensa, o hipocondríaco não
quer morrer — isto o curaria de sua loucura.
Nunca convide um hipocondríaco a matricular-se numa academia
de ginástica. Ofereça-lhe um check-up. Os
únicos exames que ele aceita fazer são os
clínicos e adora ser reprovado. Se faz cooper, a perna
dói; se pratica natação, fica resfriado; se
flexiona o abdome, sente dor nas cadeiras.
O hipocondríaco escuta o médico com a mesma
atenção que o bêbado ouve os conselhos do
abstêmio. A turma do hipocondríaco se reúne em
porta de farmácia e tira férias em clínicas de
repouso.
O hipocondríaco é o único paciente que
consegue decifrar letra de médico. Ele não se recolhe
para dormir, e sim para repousar. Nunca deseje "bom-dia" a um
hipocondríaco; pergunte: "Levantou melhor?" Aliás,
ele não se levanta; tem alta. No aniversário,
dê a ele um vidro de remédios. Todo
hipocondríaco é viciado em aspirina, vitamina C e
melatonina.
O hipocondríaco sabe dar nó nas tripas e acredita que
o melhor lazer é curtir uma diverticulite. Considera
incompetente todo médico que diz que ele não tem
nada.
O hipocondríaco acredita em tudo que a mídia fala
sobre cuidados com a saúde.
Quando viaja, não se hospeda; se interna. No bolso de dentro
do paletó ele não carrega caneta, mas
termômetro. E é a única pessoa capaz de
enxergar vírus e bactérias em talheres de
restaurantes.
Sonho de hipocondríaco é ser socorrido por um
daqueles helicópteros UTI que aparecem na TV. E sempre
reclama de que já existem telessexo, telepiada, telepizza,
telessorteio, só falta o teledoença: você liga,
descreve os sintomas e, do outro lado da linha, uma voz de
médico prescreve a medicação.
Deve ter sido um hipocondríaco quem deu ao remédio
que combate infecções o nome de antibiótico
— que significa "contra a vida".
O hipocondríaco não tem remédio. Ele só
se cura quando morre e, paradoxalmente, a morte é o sintoma
mais óbvio de que ele tinha razão. Pena que
não possa levantar-se do caixão e enfiar o dedo na
cara de quem o tratava pejorativamente como hipocondríaco.
De qualquer modo, repare como ele, defunto, traz um sorrisinho de
vitória nos lábios.
Frei Betto







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